UEA 2013 — Questão 28 · Leitura e interpretação de texto

Leitura e interpretação de texto

UEA Macro 2013 · Português

Não sei que jornal, há algum tempo, noticiou que a polícia ia tomar sob a sua proteção as crianças que aí vivem, às dezenas, exploradas por meia dúzia de bandidos. Quando li a notícia, rejubilei. Porque, há longo tempo, desde que comecei a escrever, venho repisando este assunto, pedindo piedade para essas crianças e cadeia para esses patifes.

Mas os dias correram. As providências anunciadas não vieram. Parece que a piedade policial não se estende às crianças, e que a cadeia não foi feita para dar agasalho aos que prostituem corpos de sete a oito anos… E a cidade, à noite, continua a encher-se de bandos de meninas, que vagam de teatro em teatro e de hotel em hotel, vendendo flores e aprendendo a vender beijos.

Anteontem, por horas mortas, quando saía de um teatro na rua central da cidade, vi sentada uma menina, a uma soleira de porta. Ao lado, a sua cesta de flores murchas estava atirada sobre a calçada.

Pediu-me dez tostões, chorando. Perdera toda a féria. Só conseguira obter, ao cabo de toda uma tarde de caminhadas e de pena, esses dez tostões - perdidos ou furtados. E pelos seus olhos molhados passava o terror das bordoadas que a esperavam em casa…

Fiquei parado, longo tempo, a olhá-la. O seu vulto fugia já, pequenino, quase invisível na escuridão. Ainda de longe o vi, fracamente alumiado por um lampião, sumir-se, dobrando uma esquina. Segui o meu caminho, com a morte na alma.

Ora - nestes tempos singulares em que a gente já se habituou a ouvir sem espanto coisas capazes de horrorizar a alma de Deiber -, é possível que alguém, encolhendo os ombros diante disto, me pergunte o que é que eu tenho com a vida das crianças que vendem flores e são amassadas a sopapos, quando não levam para casa uma certa e determinada quantia.

Tenho tudo, amigos meus! Não penseis que me iluda sobre a eficácia das providências que possa a polícia tomar, a fim de salvar das pancadas o corpo e da devassidão a alma de qualquer dessas meninas. Bem sei que, enquanto o mundo for mundo e enquanto houver meninas - proteja-as ou não as proteja a polícia -, haverá pais que as esbordoem, mães que as vendam, cadelas que as industriem, cães que as deflorem!

(Olavo Bilac [Gazeta de Notícias, 14.08.1894]. www.consciencia.org. Adaptado.)

De acordo com o texto, é correto afirmar que

Alternativas

  1. A
    o narrador leu a notícia sobre as providências da polícia no jornal em que trabalha.
  2. B
    a menina contou ao cronista que não conseguira vender nenhuma flor naquele dia.
  3. C
    o narrador ficou muito tempo a olhar o vulto da menina que se perdia na escuridão da noite.
  4. D
    a cadeia do Rio de Janeiro, segundo depoimentos de testemunhas, não recebe aproveitadores de meninas.
  5. E
    vários leitores perguntaram ao cronista por que ele se envolvia com um assunto desses.

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Fonte: UEA Macro 2013 · Consultar referência

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