UFLA 2026 — Questão 5 · Interpretação de Texto

Interpretação de Texto

UFLA · Português

Texto para as Questões de 01 a 05.


A PORTA ENTREABERTA: BIBLIOTECAS PÚBLICAS E A CRISE DO LEITOR NO BRASIL


Ricardo Queiroz Pinheiro


1 Escrevi este texto para não esquecer e não deixar morrer o bibliotecário de

2 biblioteca pública que sou.

3 Há quanto tempo você não entra numa biblioteca?

4 Talvez faça anos. Talvez nem se lembre da última vez. Ou talvez nunca tenha tido

5 uma por perto. (...) Há também quem nunca tenha cruzado aquela porta, mas guarde uma

6 ideia vaga - de que ali dentro mora algo que o País deixou de cuidar.

7 A verdade é que cada um de nós tem uma biblioteca na memória, mesmo que

8 imaginária. E talvez seja justamente essa lembrança difusa, esse eco de um espaço

9 comum, que nos ajude a entender o que estamos perdendo quando elas desaparecem. O

10 Brasil vive um apagamento que não se resume a estatísticas: é o esvaziamento de um

11 vínculo cultural. Em pouco mais de uma década, o País viu fechar centenas de bibliotecas

12 públicas e minguar o número de leitores. A perda é silenciosa, mas corrosiva. Quando

13 uma sociedade desmonta os lugares que garantem o direito à palavra, ela não apenas

14 empobrece intelectualmente - ela desarma a si mesma. O que está em jogo não é o futuro

15 do livro, mas o da própria ideia de cidadania.

16 Por trás desse esvaziamento há algo mais profundo do que desinteresse. Há uma

17 falha de continuidade. O Brasil sempre reconheceu a importância das bibliotecas, mas de

18 modo intermitente - um reconhecimento que se renova a cada governo e se desfaz logo

19 depois. São políticas que começam com entusiasmo e terminam em silêncio e

20 sucateamento.

21 A Promessa da Porta Aberta foi repetida em planos, discursos e leis, mas raramente

22 transformada em compromisso duradouro. O resultado é uma história marcada pela

23 descontinuidade: cada avanço é seguido de um esquecimento, cada inauguração, de um

24 abandono e portas que se fecham mesmo quando supostamente abertas.

25 Chamo de Promessa da Porta Aberta essa ideia que atravessa gerações: a

26 biblioteca como espaço de todos, livre, acessível, um território onde o conhecimento

27 circula sem barreiras. Mas a realidade sempre foi menos generosa. Em torno dessa

28 promessa formou-se um paradoxo que nunca deixou de nos acompanhar - portas abertas,

29 usos limitados.

30 No Brasil, essa contradição ganhou forma própria: bibliotecas que sobrevivem entre

31 o reconhecimento simbólico e o desamparo material, sustentadas mais por continuidades

32 afetivas do que por políticas públicas consistentes. Vivem de atos heroicos e evocações

33 vazias. Mesmo assim, há algo nelas que resiste: um modo de estar junto, de partilhar o

34 tempo, de inventar sociabilidades. Um público teimoso e renitente - é o que penso como

35 lugar de leituras, não o prédio, mas a experiência viva que acontece quando alguém,

36 qualquer um, atravessa a porta e decide ficar.

37 Mas esse modo de resistência, feito de brechas e persistências, começa a ser

38 engolido por uma maré mais ampla. O esvaziamento das bibliotecas já não se expressa

39 apenas na precariedade dos prédios ou na falta de verbas, mas na erosão simbólica da

40 leitura como valor público. O que antes era uma falha institucional tornou-se um fenômeno

41 social.

42 A erosão não é mais percebida apenas por quem vive o cotidiano das bibliotecas.

43 Ela já chegou ao discurso público, atravessou o noticiário e entrou nas estatísticas oficiais:

44 mais da metade dos brasileiros - 53% - já não se considera leitor. E entre os que ainda

45 leem, cresce o analfabetismo funcional - gente que reconhece as palavras, mas não

46 alcança o sentido. O País que um dia associou leitura à emancipação agora convive com

47 uma geração que lê sem compreender, informada por telas e desamparada de mediação.

48 (...)

49 E, como em toda crise cultural, proliferam as explicações fáceis. Há quem diga que

50 “ninguém precisa mais de biblioteca na era da internet”, que “tudo está on-line”, que “a

51 biblioteca pública é coisa do século 20”. São frases de conforto para quem confunde

52 acesso com compreensão e informação com conhecimento.

53 A rede pode conter todos os livros do mundo, mas nenhum deles se abre sozinho. O

54 que está desaparecendo não é o suporte, é o espaço social que praticava a mediação da

55 leitura - mesmo corroído por ausências, improvisos e uma crônica falta de investimento.

56 (...)

57 Há um consenso perverso que atravessa classes e discursos: a ideia de que “o

58 brasileiro não lê”. Tanto a fala reacionária, erodida pelo preconceito, quanto a elitista,

59 nutrida pelo desejo de distinção cultural, adoram repeti-la. Uma para justificar o desprezo;

60 a outra, para exibir superioridade. No fundo, ambas convergem no mesmo ponto: culpam

61 o não leitor. Fingem ignorar que a leitura não é virtude individual, mas prática social

62 sustentada por tempo, silêncio, mediação e acesso - tudo o que o País sistematicamente

63 nega. Dizer que o povo não lê é mais fácil do que admitir que o poder não quer que ele

64 tenha onde ler. (...)

65 Chegamos a um ponto em que já não basta repetir o refrão da “biblioteca para

66 todos”. O País precisa de políticas públicas consistentes, com financiamento estável,

67 continuidade administrativa e compromisso social real. A intermitência é a doença crônica

68 da cultura brasileira: cada gestão inaugura e desmonta, anuncia e esquece. É preciso

69 romper esse ciclo de promessas vazias e reconhecer a biblioteca pública como serviço

70 essencial, tão necessário quanto saúde e transporte. Investir nelas não é benevolência, é

71 reparação histórica. O direito à leitura, à informação e à convivência cultural precisa deixar

72 de ser tratado como luxo de época e passar a ser garantido como condição básica de

73 cidadania.

74 A Promessa da Porta Aberta sobrevive, mas cada vez mais entre escombros. O

75 paradoxo se aprofundou: multiplicam-se as campanhas que exaltam a leitura enquanto

76 diminuem os leitores. O País celebra a Semana do Livro com a mesma solenidade com

77 que fecha bibliotecas.

78 Enquanto o analfabetismo funcional cresce, repete-se o mantra de que “os livros

79 podem mudar a vida das pessoas”- frase que funciona bem em propaganda institucional,

80 mas não resiste ao chão da realidade. Livros não mudam vidas sem tempo, sem

81 mediação, sem espaço. É por isso que a biblioteca pública continua sendo mais do que

82 um depósito de papel: é o território material onde essa promessa ainda pode se cumprir,

83 se houver política que a sustente.

84 A biblioteca pública, como lugar de leituras, é a forma concreta do comum - o ponto

85 em que o espaço deixa de ser mera arquitetura e se converte em vida partilhada. É ali que

86 a palavra deixa de ser mercadoria e volta a ser bem comum. Cada biblioteca, por mais

87 frágil que pareça, é um laboratório silencioso de convivência, de escuta e de imaginação

88 compartilhada.

89 Ali, o comum se pratica em gestos mínimos: um livro aberto, uma conversa breve,

90 um tempo que se restitui ao coletivo. Em tempos de pressa e desinformação, a biblioteca

91 é a política pública mais simples e mais radical que um país pode ter - uma porta

92 entreaberta por onde a vida ainda insiste em entrar.


Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=954960.

Figura da questão


Fonte: Disponível em: https://universoabierto.org/2016/08/17/servicios-bibliotecarios (Traduzido)


Analise os excertos retirados do texto A porta entreaberta:


I. “Cada biblioteca, por mais frágil que pareça, é um laboratório silencioso de convivência, de escuta e de imaginação compartilhada.” (linhas 86 a 88)

II. “[...] a biblioteca como espaço de todos, livre, acessível, um território onde o conhecimento circula sem barreiras. Mas a realidade sempre foi menos generosa. Em torno dessa promessa formou-se um paradoxo que nunca deixou de nos acompanhar - portas abertas, usos limitados.” (linhas 25 a 29)

III. “O esvaziamento das bibliotecas já não se expressa apenas na precariedade dos prédios ou na falta de verbas, mas na erosão simbólica da leitura como valor público.” (linhas 38 a 40)

IV. “O País que um dia associou leitura à emancipação agora convive com uma geração que lê sem compreender, informada por telas e desamparada de mediação.” (linhas 46 e 47)

V. “Chegamos a um ponto em que já não basta repetir o refrão da “biblioteca para todos”. O País precisa de políticas públicas consistentes, com financiamento estável, continuidade administrativa e compromisso social real.” (linhas 65 a 67)


Considerando a charge e os excertos apresentados, assinale a alternativa que apresenta um diálogo em que se coadunam posicionamentos enunciativos semelhantes.

Alternativas

  1. A

    Somente I e III

  2. B

    Somente II, III e IV

  3. C

    Somente II e V

  4. D

    Somente I, IV e V

Consulte a resposta

Visitantes podem consultar seis questões. Com uma conta gratuita, consulte até 20 por dia; no plano pago, todas sem limite.

Fonte: UFLA

Mais questões de Português