UFLA 2026 — Questão 5 · Interpretação de Texto

Interpretação de Texto

UFLA · Português

Texto para as Questões de 01 a 05.


O VAZIO DA AUSÊNCIA DE AUTENTICIDADE


"Quando expectativas dos outros subtraem a vida que valorizamos"


1 No palco da vida, somos ensinados a interpretar diversos papéis que não

2 escolhemos. Todos têm algo a dizer sobre como devemos atuar e sobre o que devemos

3 ser. Todos querem escrever uma parte do roteiro. E, se não tivermos cuidado, a vida que

4 realmente valorizamos se esvai de nós, sendo substituída por uma existência voltada para

5 atender às inúmeras demandas dos outros.

6 A busca por aprovação começa muito cedo. Em várias famílias, os filhos tendem a

7 ser pressionados a seguir os caminhos desejados pelos pais, mesmo que essas

8 trajetórias não reflitam suas paixões.

9 A profissão “respeitável”, o casamento “ideal”, a religião “verdadeira”, a postura

10 “adequada”. Cada decisão passa a ser amplamente moldada por um desejo, mesmo que

11 não consciente, de evitar a desaprovação. Porém, quando evitamos decepcionar os

12 outros, não raramente estamos decepcionando a nós mesmos.

13 Esse contexto não acaba dentro de casa. Ele se estende até nossas amizades,

14 relacionamentos e ao ambiente de trabalho. É comum ver pessoas gastarem anos de

15 suas vidas em empregos que detestam, mas permanecem neles simplesmente pelo fato

16 de estes apresentarem certo prestígio social.

17 Talvez ainda mais comum seja a quantidade de talentos sufocados pelo medo de

18 seguir uma paixão por ser considerada arriscada demais ou irresponsável demais. Isso

19 leva não só a uma perda do que poderíamos ser mas também ao contínuo sofrimento de

20 viver uma vida que não nos pertence.

21 Na era digital, o outro, mesmo que distante, passou a aumentar a pressão de como

22 devemos atuar. Hoje, em vários casos, somos avaliados não apenas por aqueles que

23 conhecemos como pelos que não conhecemos. Cada postagem é um convite para um

24 julgamento. Nesse novo palco da vida, a performance é incessante. Mesmo que, nos

25 bastidores do espetáculo, se encontrem milhares de pessoas insatisfeitas e

26 completamente perdidas.

27 Nesse contexto, aumentou-se não só a pressão para viver de acordo com as

28 expectativas dos outros como, em muitos casos, parece que as pessoas passaram a

29 deixar de se conhecer.

30 Quem somos quando ninguém está olhando? Quais são os valores que realmente

31 importam para nós? Quais sonhos você deixou de lado porque eles não estavam

32 encaixados no roteiro? Do que você realmente gosta? Essas são perguntas que

33 raramente temos coragem de responder, porque elas nos convidam a confrontar o vazio

34 deixado pela ausência de autenticidade.

35 No entanto, recuperar a vida que valorizamos não é fácil, pois requer, em muitos

36 casos, a ousadia de ter que desapontar os outros. Nem todos aceitam bem quando

37 decidimos romper com aqueles valores que são considerados corretos, mas que nos

38 aprisionam por dentro.

39 Além disso, reconhecermos a vida que realmente valorizamos exige muita

40 introspecção. Exige uma desconexão das vozes externas que estão dizendo a todo

41 momento para onde devemos ir.

42 Em tal processo, é preciso ter em mente que isso não é uma escolha apenas no

43 âmbito pessoal, mas também uma escolha política. Uma sociedade na qual todos vivem

44 para atender às expectativas dos outros representa uma sociedade da conformidade, não

45 do progresso.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/michael-franca/2024/12/o-vazio-da-ausencia-de-autenticidad

e.shtml.

Leia o trecho a seguir:


“Cada postagem é um convite para um julgamento. Nesse novo palco da vida, a performance é incessante. Mesmo que, nos bastidores do espetáculo, se encontrem milhares de pessoas insatisfeitas e completamente perdidas.” (linhas 23 a 26)


No trecho, a expressão destacada “a performance” cumpre uma função argumentativa de:

Alternativas

  1. A

    Criticar, a partir da ambiguidade semântica do termo (que designa tanto atuação teatral quanto desempenho técnico), a transformação da vida social em espetáculo permanente em que a existência autêntica é substituída por encenação contínua voltada para avaliação e aprovação de públicos reais e virtuais.

  2. B

    Valorizar positivamente o esforço individual de adaptação às demandas da era digital, reconhecendo que a capacidade de “performar” adequadamente em diferentes contextos sociais é competência necessária para o sucesso profissional e pessoal nas sociedades contemporâneas.

  3. C

    Estabelecer distinção neutra entre dois modos de existência igualmente legítimos: a performance pública (esfera das relações sociais) e a autenticidade privada (esfera da intimidade), sugerindo que ambos coexistem harmoniosamente na vida dos indivíduos contemporâneos.

  4. D

    Atenuar a crítica às redes sociais ao reconhecer que, embora a performance seja “incessante”, ela representa oportunidade democratizadora de visibilidade para grupos historicamente marginalizados, equilibrando aspectos negativos (pressão por aprovação) e positivos (inclusão social).

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Fonte: UFLA

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