UFLA 2025 — Questão 14 · Inferência Textual
Inferência Textual
UFLA · Português
INSTRUÇÕES: Leia o Texto 2 para responder às questões 9 a 15
TEXTO 2
Éramos todos selvagens
Vivíamos em uma montanha-russa, circulando por parques de diversões que não passavam por fiscalização
Giovana Madalosso
1 Lembra como éramos? Viajávamos para a praia em sete pessoas num carro pequeno. No
2 banco da frente, o pai sem cinto de segurança. Ao seu lado, a mãe segurando no colo o irmão
3 mais novo que, por sua vez, segurava um cachorro. Obviamente, todos sem cinto.
4 Em trajetos mais curtos, quando éramos muitos, um ou outro embarcava no porta-malas.
5 Ou na moto sem capacete. Ou de pé na carroceria da camionete, rolando soltos lá atrás feito
6 melancias.
7 Os pequenos fumavam cigarros de chocolate. Os adultos, de nicotina. Em restaurantes,
8 escritórios, aviões. Cheguei a pegar um elevador em que havia um cinzeiro. [...]
9 Refrigerante era água. Como meu pai tinha um restaurante, já dávamos largada com Fanta
10 sabor laranja no café da manhã. Quando minha mãe resolvia ser saudável, servia Tang. Não era
11 só na minha casa: festa de criança sem Coca-Cola não era festa. Conheci uma família que comia
12 diariamente macarrão instantâneo com molho de salsichas. Estão vivos, mas não sei se passam
13 bem — por falta de informação, tempo ou dinheiro, ainda há muitas famílias fazendo esse lento
14 harakiri.
15 Com o bucho cheio de sódio, pulávamos na piscina sem saber nadar e sem usar boias. Nos
16 dependurávamos da janela do décimo andar sem rede de proteção. Se alguma coisa desse
17 errado, os pais batiam. Cintada, chinelada, tamancada.
18 Na escola, o bullying, que nem esse nome tinha, era livre. Colegas e professores aderiam a
19 apelidos como: Arroto de Crush, Tiziu, Baleia. Crianças desciam na boquinha da garrafa em rede
20 nacional. Programas de tevê voltados para toda a família faziam troça com gay. Piadas de salão
21 envolviam anões, negros, judeus e portugueses.
22 Leões e macacos davam duro no circo. Aplaudíamos elefantes cabisbaixos levantando a
23 patinha. Jorrando água pela tromba. Garotos matavam passarinhos com estilingue. Amarravam
24 latas nos rabos dos gatos. Multidões enchiam touradas e farras do boi. A rinha de galo era um
25 sucesso. E quem achava crueldade, era chamado, de modo totalmente indevido, de viadinho.
26 Vivíamos em uma montanha-russa, circulando por parques de diversões que não
27 passavam por fiscalização. Andávamos em barcos que não tinham coletes salva-vidas. Quase
28 ninguém usava protetor solar. As mães roubavam a Coca-Cola dos filhos para passar no corpo:
29 prometia o maior bronze. Os homens se recusavam a usar camisinha: é como chupar bala com
30 papel.
31 Conheci mulheres que alisavam os cabelos com ferro de passar. Nenhuma delas dizia para
32 a outra: seu cabelo é lindo do jeito que é. Chamavam pessoas orelhudas de Dumbo. Tive uma
33 amiga que, para ir a uma festa, colou as orelhas com Super Bonder.
34 Muitos homens nasceram, viveram e morreram sem tirar um prato da mesa. Quase todo
35 mundo dirigia bêbado. Depressão era frescura.
36 Sobrevivemos. E evoluímos, como evoluímos. Mas desconfio que, daqui a trinta anos,
37 olharemos para trás e pensaremos como éramos selvagens em 2023.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-maladosso/2023/09/eramos-todos-selvagens.shtml
(Adaptado). Acesso em: 25 ago. 2025.
No texto “Éramos todos selvagens”, a autora faz referência direta a diferentes formas de preconceito presentes no cotidiano do passado. Considerando essa afirmação, é CORRETO inferir que:
Alternativas
- A
O texto romantiza as antigas práticas discriminatórias, tratando a estigmatização e a ridicularização de grupos minoritários como parte natural e positiva do processo de socialização.
- B
A autora problematiza, de modo irônico, que a naturalização de preconceitos relacionados às questões étnico-raciais, de gênero e de nacionalidade era amplamente aceita e disseminada.
- C
A autora limita-se a descrever episódios isolados, banalizando os efeitos perversos dessas práticas, ao citar diferentes casos de bullying e discriminação recorrentes no cotidiano social.
- D
O texto apresenta vários exemplos que ilustram a problemática da intolerância, mas desloca para as gerações futuras a responsabilidade para a minimização de práticas discriminatórias.
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Fonte: UFLA