PC CE 2025 — Questão 1 · Pressupostos e subentendidos
Pressupostos e subentendidos
PC CE · Português
Mila
- Era pouco maior do que minha mão: por isso eu
- precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como
- eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela
- não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse
- calor e acredito que ela também. Dias depois, quando
- abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me
- para dono. Pior: me aceitou.
- Foram 13 anos de chamego e encanto.
- Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima
- do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra
- o vento?
- Amá-la — foi a resposta e também acredito que
- ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla
- dinâmica contra as ciladas que se armam. E também
- contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando
- meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua
- cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não
- queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
- Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do
- mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove
- filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou
- mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos
- pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”,
- como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma
- lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e
- transportada por súditos imaginários.
- No sábado, olhando-me nos olhos, com seus
- olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada
- de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela
- tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem
- maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
- Eu me considerava um profissional decente. Até
- semana passada, houvesse o que houvesse, procurava
- cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi
- possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a
- meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar
- com ela.
- Até o último momento, olhou para mim, me
- escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços,
- apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que
- ela seria maior do que a saudade.
CONY, Carlos Heitor. Mila. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (org.). As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 271–272.
O tema central em torno do qual se organiza o texto é
Alternativas
- A
o abandono animal, representado pela atitude do narrador em manter apenas um filhote da ninhada.
- B
o tratamento humanizado do animal de estimação como causa de incômodo para o narrador.
- C
a solidão do narrador e a descrição de sua profissão, diretamente relacionada ao animal.
- D
a relação afetiva entre um animal de estimação e seu tutor, que marca a vida de ambos.
- E
a limitação da vida doméstica do animal em comparação aos passeios externos junto ao narrador.
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Fonte: PC CE