UFLA 2025 — Questão 3 · Interpretação de Texto

Interpretação de Texto

UFLA · Português

INSTRUÇÕES: Leia o Texto 1 para responder às questões 1 a 8


TEXTO 1


Como a grande imprensa interdita a voz do servidor público nos espaços de opinião

Essa interdição revolta, pois se dá em veículos que se autointitulam 'plurais'


Luís Humberto Carrijo


1 Os espaços de opinião dos jornais são fóruns simbólicos de disputa de ideias. Eles permitem

2 que diferentes segmentos sociais apresentem argumentos, valores e propostas sobre temas de

3 interesse público. Por isso, a diversidade de pontos de vista é fundamental para que haja

4 deliberação autêntica, não apenas a reprodução do discurso dominante. Isso é particularmente

5 importante em áreas como política fiscal, reformas do Estado, meio ambiente e saúde pública, em

6 que especialistas têm contribuições legítimas a oferecer.

7 Esses espaços influenciam diretamente a agenda pública, pois ajudam a definir o que é

8 relevante e a buscar soluções para temas de maior complexidade. Um artigo publicado em um

9 jornal de referência credencia aquela voz. É uma forma de dizer à sociedade: essa pessoa tem algo

10 importante a dizer.

11 A exclusão de certos grupos do debate público reforça a ideia de que há consenso onde há,

12 na verdade, conflito. E é justamente isso o que acontece com os servidores públicos. A ausência

13 sistemática do funcionalismo nessas arenas deliberativas não é neutra: ela indica que sua palavra

14 está sendo desautorizada.

15 É difícil creditar essa invisibilização à inércia ou à falta de conteúdo por parte de seus

16 representantes. Será que não têm nada a dizer ou sequer talento para redigir um artigo com

17 clareza, concisão e argumentação sólida em relação a assuntos atuais e de relevo sobre os quais

18 têm autoridade?

19 No processo legislativo da reforma da Previdência, foi possível observar com lupa esse

20 fenômeno. No meu mestrado na Universidade Autônoma de Barcelona, conduzi uma pesquisa que

21 identificou a total ausência do servidor público como ator ativo na discussão sobre a reforma,

22 embora fosse um dos segmentos mais atingidos por ela.

23 Além de aparecer sempre como vilão em editoriais, colunas e artigos de representantes do

24 mercado, o servidor não teve um único espaço para se defender. Enquanto articulistas ligados ao

25 chamado "setor produtivo" se revezavam para exaltar os "avanços" da reforma, dirigentes de

26 entidades de classe simplesmente não tiveram oportunidade para expor seus contrapontos.

27 A exceção? Um ou outro artigo aceito por generosidade editorial para manter o verniz

28 democrático do debate. Mas mesmo esses foram assinados por lideranças de fora: dirigentes de

29 centrais sindicais e políticos da oposição, que não se ocuparam devidamente de aspectos que

30 afetavam as prerrogativas do servidor público.

31 Sem que existisse, nas seções de opinião, resistência técnica à reforma, para o leitor

32 comum, o servidor público parecia um mero obstáculo corporativo. Nunca um sujeito político, com

33 lugar de fala.

34 O mesmo pudemos observar na construção da reforma tributária e, agora, sobre a reforma

35 administrativa e sobre a PEC 65, que descaracteriza o Banco Central como órgão de Estado. Fica

36 o desafio: quantos artigos assinados por representantes do funcionalismo foram publicados nos

37 últimos 30 meses sobre temas para os quais tinham formação técnica, vivência institucional e

38 legitimidade representativa?

39 O que torna essa interdição mais revoltante é que ela se dá em veículos que se autointitulam

40 "plurais" em campanhas de marketing institucional — um cabotismo vazio, que se baseia em uma

41 virtude inexistente.

42 Essa interdição cumpre um papel ideológico bem definido: reforçar a hegemonia do

43 neoliberalismo no controle da narrativa e construir uma percepção artificial de concordância

44 definitiva, como se não existissem alternativas.

45 Estudiosos como Denis McQuail sustentam que o jornalismo real não pode prescindir da

46 diversidade de opinião. A Unesco atesta de forma cristalina: a liberdade de imprensa é insuficiente

47 sem um ecossistema plural. Ignorar esse princípio normativo enfraquece a função pública da

48 imprensa.

49 Espaços de opinião são arenas fundamentais para a circulação de ideias, disputa de

50 narrativas e formação de cidadania. Quando capturados por uma única visão de mundo, deixam

51 de servir à democracia e passam a atender unicamente aos interesses primitivos da lógica

52 capitalista.


Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/08/como-a-grande-imprensa-interdita-a-voz-do-servidor-publico-nos-espacos-de-opiniao.shtml. Acesso em: 25 ago. 2025.

Considerando as especificidades da proposta discursiva dos espaços de opinião nos jornais, conforme destacado pelo autor, é possível inferir que esses ambientes, deveriam, EXCETO:

Alternativas

  1. A

    Funcionar como espaços ideológicos que oportunizam o confronto de diferentes perspectivas, permitindo visibilidade a diferentes posicionamentos sobre temas de interesse coletivo.

  2. B

    Exercer influência significativa na construção de pautas públicas, contribuindo para a definição de prioridades sociais e para a busca de soluções a questões complexas.

  3. C

    Realizar a reprodução de opiniões já estabelecidas, evitando a expressão de argumentos divergentes e restringindo o debate a uma visão de mundo, com vistas a minimizar confrontos ideológicos.

  4. D

    Atuar como instrumentos essenciais no aprofundamento da cidadania e do pluralismo democrático, viabilizando a circulação livre de ideias e o embate entre distintas narrativas.

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Fonte: UFLA

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