Prefeitura de Araruna 2024 — Questão 36 · Variação linguística e norma padrão (ensino)

Variação linguística e norma padrão (ensino)

Prefeitura de Araruna · Português

Para responder às questões de 34 a 36, leia o Texto II.


Texto II - Noção de erro de português é afetada pela ideia de que, vista do passado, toda evolução é corrupção - Aldo Bizzocchi


Somos um povo que adora discutir a própria língua. E quando o fazemos, um dos assuntos que invariavelmente vêm à baila é a famigerada questão do erro gramatical. Muito se tem debatido a respeito, e a suposta existência de erros em nossa fala (bem como na escrita) ensejou até o surgimento de uma nova profissão, por sinal lucrativa, a de consultor gramatical. Igualmente, peritos no assunto têm mantido com sucesso colunas em jornais, sites, programas de rádio ou televisão com o propósito de ensinar as pessoas a falar corretamente o seu próprio idioma. Isso porque, segundo o diagnóstico catastrofista desses entendidos, nunca se falou tão mal o português como agora, nossa língua caminha inelutavelmente para a ruína e a dissolução, já não se escreve mais como antigamente, e toda uma interminável cantilena de rabugices.

É preciso, então, definir claramente o que é o erro em matéria de língua. É evidente que, se um estrangeiro tentando falar português disser “O meu mulher ser muito bonita”, cometerá um erro, a ponto de se poder dizer que isso não é português. Da mesma forma, quando cometemos um lapsus linguae, isto é, um equívoco involuntário do qual temos consciência, estamos diante de um erro linguístico. Mas o que se costuma chamar de “erro de português” é uma expressão linguística que nada tem de acidental, já que é sistemática e, geralmente, proferida por pessoas de menor nível escolar e socioeconômico, embora possa ocorrer até nos mais altos escalões da sociedade.

Para a linguística, que é a ciência da linguagem humana, esse fenômeno não pode ser chamado de erro. Se a língua é um sistema de signos que se articulam segundo leis definidas para permitir a comunicação e o pensamento humanos, toda expressão linguística, mesmo a das pessoas iletradas, cumpre esse papel com eficiência. A maioria dos chamados erros constitui, na verdade, um uso linguístico inadequado à situação de comunicação. Para entendermos melhor essa inadequação, vamos fazer uma analogia entre a língua que falamos e a roupa que usamos. Ninguém em sã consciência vai a uma cerimônia de formatura de camiseta e bermudas, tampouco vai à praia de terno. Assim como há uma roupa adequada a cada ocasião, há uma forma de expressão linguística, chamada registro ou nível de linguagem, adequada a cada situação de discurso. [...]

Mas e aquelas pessoas que moram na periferia ou na zona rural e dizem “pobrema”, “cardeneta” ou “puliça”, elas não estão falando errado? Do ponto de vista normativo, sim. Mas, como disse, a gramática normativa só se aplica a situações e ambientes formais. O registro deve, antes de tudo, estar adequado ao contexto social da comunicação. Pessoas que vivem num meio de baixa escolaridade e pronunciam “pobrema” estão adaptadas ao seu habitat. Se você duvida, experimente entrar numa favela do Rio vestindo roupa social e vá conversar com os traficantes usando linguagem de magistrado para ver o que lhe acontece.


Fonte: Bizzocci, Aldo. Noção de erro de português é afetada pela ideia de que, vista do passado, toda evolução é corrupção. Revista Língua Portuguesa, ano 03, nº25, novembro de 2007.

A partir da leitura do texto, pensando em atividades pedagógicas para se trabalhar o ensino da leitura e da escrita que contemplem as variações linguísticas, de maneira a priorizar o acolhimento das diferenças e a adequação linguística das situações comunicativas, analise as alternativas e marque a CORRETA.

Alternativas

  1. A

    O trabalho com a variação linguística deve incluir a discussão sobre o desprestígio social da língua e escrita de algumas regiões brasileiras, como também das classes sociais que empregam essas variedades dialetais, de modo a fazer com que o aluno rejeite o seu uso, conforme exemplificado no trecho: “Se você duvida, experimente entrar numa favela do Rio vestindo roupa social e vá conversar com os traficantes usando linguagem de magistrado para ver o que lhe acontece”.

  2. B

    A aplicação de um trabalho com variedades linguísticas no ensino da leitura e escrita deve incluir a obrigatoriedade de se atender aos elementos notacionais da língua padrão em todas as situações de uso, como se afirma em: “A maioria dos chamados erros constitui, na verdade, um uso linguístico inadequado à situação de comunicação”.

  3. C

    O trabalho com a variação linguística na leitura e escrita perpassa necessariamente a adaptação fala/escrita de todas as variantes para a norma padrão, conforme argumentado no trecho: “Mas o que se costuma chamar de “erro de português” é uma expressão linguística que nada tem de acidental, já que é sistemática e, geralmente, proferida por pessoas de menor nível escolar e socioeconômico, embora possa ocorrer até nos mais altos escalões da sociedade”.

  4. D

    O trabalho com a língua materna na escola é secundário. Sendo assim, as variantes linguísticas devem ser utilizadas como exemplo de erros que devem ser evitados, como é apontado no trecho: “É preciso, então, definir claramente o que é o erro em matéria de língua”.

  5. E

    O trabalho com a variação linguística deve constituir um processo de reflexão sobre as variedades da língua e os valores sociais distintamente atribuídos, combatendo-se o preconceito, como se observa no trecho “O registro deve, antes de tudo, estar adequado ao contexto social da comunicação”.

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Fonte: Prefeitura de Araruna

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