IFPR 2023 — Questão 4 · Inferência Textual
Inferência Textual
IFPR · Português
O texto a seguir é referência para as questões 01 a 05.
Violência e culpa
Natalia Pasternak
1 [...] Historicamente, ciência e sociedade não estiveram ao lado de mulheres vítimas de violência. Há apenas três décadas, em 1985,
2 houve tentativa na Associação Americana de Psiquiatria de incluir, no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
3 (DSM), o Transtorno de Personalidade Masoquista, abraçando a ideia freudiana – ultrapassada há tempos – de que a mulher fica
4 com o agressor porque aprecia o sofrimento. A proposta foi criticada duramente por mulheres psiquiatras e psicólogas. Não há
5 evidência científica para justificar o diagnóstico. Era apenas uma tradução do senso comum patriarcal de boteco para o “psiquiatrês”.
6 Acuados, os psiquiatras trocaram o masoquismo por “Transtorno de Personalidade Autodestrutiva”, uma versão suavizada do
7 diagnóstico anterior, mas que ainda assim daria margem para que mulheres encurraladas em relacionamentos terríveis fossem
8 vistas “cientificamente” não como vítimas de um crime, mas como gente que precisa de terapia.
9 Mas à medida que temos mais mulheres de destaque fazendo ciência, absurdos assim vão sendo expostos e escancarados. Em
10 1988, a psicóloga Paula Caplan e a socióloga Margrit Eichler resolveram fazer uma nova sugestão de transtorno para ser incorporado
11 ao DSM: o Transtorno de Personalidade Dominadora Delirante.
12 Os requisitos para um paciente enquadrar-se eram, entre outros: ser incapaz de expressar sentimentos e de se colocar no lugar dos
13 outros; usar poder, silêncio ou ausência para evitar qualquer tipo de negociação ao lidar com conflito; acreditar que as mulheres são
14 responsáveis por tudo de ruim que acontece com esse paciente, enquanto todas as coisas boas são resultado de seus próprios
15 esforços e habilidades; necessidade incontrolável de exagerar suas conquistas e diminuir as conquistas de mulheres [...].
16 Elas não conseguiram aprovar a inclusão no DSM, mas exigiram que os mesmos critérios de exclusão aplicados à proposta fossem
17 adotados globalmente. A alegação (verdadeira) de que não havia pesquisa científica para embasar o transtorno delirante deveria
18 também pesar sobre o diagnóstico de personalidade autodestrutiva, que aliás tinha sido aprovado em votação, e não com base em
19 revisão da evidência! A vitória foi parcial: o transtorno autodestrutivo acabou aprovado, mas como um anexo, uma subcategoria, e
20 não como uma doença “própria”. E a redação incluiu a ressalva de que não deveria ser usado para violência doméstica.
21 Ciência não existe no vácuo, mas sim dentro de contexto social e histórico. Já houve diversas tentativas de sequestrar o jaleco e o
22 microscópio para justificar machismo, racismo e outras ideias que, em diferentes momentos da história, fizeram parte do senso
23 comum da elite de onde, tradicionalmente, são recrutados os cientistas. Aumentar a representatividade dentro da ciência é uma das
24 maneiras de evitar que estas distorções sigam prejudicando pessoas e influenciando políticas públicas.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-da-ciencia/post/2023/03/violencia-e-culpa.ghtml. Adaptado.
De acordo com o texto, considere as seguintes afirmativas:
1. A sugestão de incluir o “Transtorno de Personalidade Dominadora Delirante” no DSM foi um contra-ataque à proposta de inclusão do “Transtorno de Personalidade Autodestrutiva”.
2. Ainda que se diga o contrário, o “Transtorno de Personalidade Autodestrutiva” foi proposto com base científica.
3. Os requisitos estabelecidos para que um paciente se enquadrasse no “Transtorno de Personalidade Dominadora Delirante” foram definidos sem base científica.
Assinale a alternativa correta.
Alternativas
- A
Somente a afirmativa 1 é verdadeira.
- B
Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
- C
Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
- D
Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
- E
As afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras.
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Fonte: IFPR