Prefeitura de Porteiras 2018 — Questão 24 · Língua Portuguesa
Língua Portuguesa
Prefeitura de Porteiras · Português
TEXTO I
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
E agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
(Carlos Drummond de Andrade; Poesias -1942. Adap)
O texto poético se caracteriza pela utilização de muitos recursos estéticos, tais como a repetição de sons, de palavras e até de períodos inteiros. Em “José”, há, entre outras, a repetição dos versos “E agora José” e “A noite esfriou” com o intuito de:
Alternativas
- A
Mostrar que José foi abandonado em pleno inverno;
- B
Demonstrar a temporalidade do texto;
- C
Reverberar que depois de muita festa, a tempestade chegou;
- D
Instaurar a dúvida e o medo;
- E
Demonstrar a incerteza e o abandono intensificados como uma dor física.
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Fonte: Prefeitura de Porteiras